quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Saúde: Os deuses Barbie e Ken!



Barbie completou 50 anos, continua com seu sorriso, pele, corpo e aparência inalterados. Ken, sempre em forma, invejável e poderoso. A casa da Barbie, o carro do Ken, a mobília, as roupas, impecáveis. Um estilo de vida aprovado, atual, na vanguarda, sinônimo de sucesso e felicidade, estampados em semblantes que transmitem confiabilidade e segurança em seu futuro. De plástico, pensarão alguns críticos. Inanimados, dirão outros. Bonecos, torcerão o nariz os céticos. Modelos de vida de milhões de fãs, afirmarão admiradores inconscientes exclamando apenas: “parecem reais”!

Superpoderosos, não sofrem de depressão, angústia, transtornos ou vícios, pois desprezam as muletas sociais que possibilitam as defesas psíquicas para obter o equilíbrio necessário a sobreviver. Eles têm a máscara da felicidade, dominam o conhecimento de tudo que é positivo, com eles não há tempos ruins, crises, tristezas, perdas. Dominam seu estilo de vida.

Humanos ficam irritadiços, ansiosos, insatisfeitos sentem-se impotentes e incompetentes. Se não fracassam ao menos têm a sensação de que pioram com o tempo. Alguns percebem a interação com o meio, o tanto que foram influenciados pela família, ou de modo mais angustiante, como seus filhos refletem seus comportamentos e valores. Sentirem-se vítimas ou culpados é participar de um ciclo vicioso enquanto o tempo está passando, sobra um resto de indignação diante da falta de sentido na vida que indica um desperdício de algumas coisas essenciais, difíceis de nomear, pois compete a cada um fazê-lo.

O imaginário que advém da felicidade de Barbie e Ken, indica que existem fórmulas mágicas, prontas, que nos possibilitam acalmar nossas mentes, abrandar nossos corações, prometendo a segurança para enfrentar o mundo competitivo e hostil que não nos permite as posturas de exposição da fragilidade humana, essa coisa chata que teima indicar o quanto nossa vida é imperfeita. Barbie e Ken não conhecem imperfeição, falha humana, depressão, injustiça, sacanagem, fracassos, erros, consequências, e principalmente as fraquezas da alma.

Em regra utilizamos comportamentos para evitar pensar, conversar e discutir sobre política, economia, religião, qualquer coisa que impeça o debate e a contestação, afastando a argumentação, tudo que impeça o conhecimento fruto da reflexão. Afinal, nunca se viu a Barbie e o Ken contestarem, indagarem, refletirem sobre as questões essenciais e fundamentais da vida, pois diante destas já nasceram acabados, prontos para o sucesso. E nós, humanos, morremos de inveja ou seria uma alienação, uma corrupção do espírito?

Transformar a vida é possível quando percebemos nossa humanidade, e ela é formada principalmente pela nossa imperfeição... quanto mais nos aceitamos imperfeitos, mais compreendemos a humanidade de todos os que nos cercam, mais distantes do mundo perfeito de Barbie e Ken nos tornamos, aceitamos conviver no mundo onde permeia a imperfeição.

Este mundo que só elogia o belo, o estético, o positivo, o correto, o engajado, o que está na moda, o que detém força e poder, é um mundo sem tolerância, que não consegue conviver onde houver o feio, a ignorância, o fora do padrão socialmente aceito, o diferente, a falha, a imperfeição, o que falta, o pobre, o insucesso, a burrice, o careta, ... enfim, a miséria humana passa a ser desprezível, escondida e negada. Sempre houve esta tendência, talvez o que tenha mudado é a forma estética da expressão do humano, pois os discursos proíbem mostrar a falha social, a falta humana, a brevidade do ser.

Na verdade, somente por efêmeros momentos é que estamos realmente tão felizes quanto Barbie e Ken, porém negamos e deixamos de questionar a cerca do que não é efêmero na vida, a própria falha em existir. As pessoas podem ser boas e felizes, embora a condição humana, e portanto passíveis de projetar naqueles que estão ao seu redor a própria imperfeição, acusando, apontando, mostrando... É assim que crescemos, nos desenvolvemos e aprendemos a ser gente, interagindo nas faltas e falhas em ser e existir, e, é por isto mesmo, que precisamos buscar o que houver de especial na produção humana que aborda estes temas (arte, literatura, filosofia, cultura...)

A esperança mais consistente a passarmos às futuras gerações, com coisas muito mais importantes que patrimônio ou segredos de felicidade baseados em mistério e manipulação, consiste em nos ocupar de sermos especiais, interessantes, questionadores, inquietos, anarquistas, alquimistas, metafísicos,... qualquer coisa que nos faça ser protagonistas da construção de nossa essência, e não meros repetidores de modelos que nos preenchem de insatisfação e angústia.

Romeu Jesus Tieppo, CRP 12/00694,
psicólogo clínico p/ adolescentes e adultos.
Telefone: 8822-6411
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