
Wander Cairo Levy é um historiador fajuto que mistura lendas, conversa
fiada, fatos e invencionices para decupar o que a história oficial não
registra, nem debaixo do pau-de-arara. levy.wander@gmail.com.br
Viver na Lagoa custa o tanto que o morador tem no bolso. Pode ser o bolso do americano que, dizem as lendas, tem uma das maiores fortunas do mundo e comprou uma casa no morro do Badejo botando na garagem um Land Rover e um BMW para passar algumas semanas por ano, como pode ser o bolso do garoto que chegou com um sleep bag nas costas e uma vontade imensa de morar nestas bandas.
A Lagoa dos abonados tem casas imensas, algumas maiores do que os terrenos, como se vê na estranha arquitetura do Saulo Ramos; carrões 4x4, ideiais para rodar no asfalto; rega bofe com direito a show nacional de algum artista de segunda linha e dancing com o melhor Dj do mundo. Aliás cheguei a conclusão que todos os Djs que aqui aportam são os melhores do mundo.
Os ricos e famosos da Lagoa são os responsáveis diretos pelo salto de qualidade no comércio local. Claro que tem mais oferta do que procura porque não somos tão bem servidos de ricos assim. Prova disso está na avalanche de salões de beleza para cuidar das nossas meninas. São tantos que só na rua do shopping tem seis, pode contar. Haja cabelo e unha para fazer.
Os durangos mais maduros se divertem batendo pé pelo centrinho e sentando nas mesas de amigos e conhecidos nos cafés. Tem um deles, famoso, que passa o dia de mesa em mesa e guarda seu parco dinheirinho para comer um salgado comprado no Magia e devidamente consumido no estacionamento do próprio.
A garotada que vive na pindaíba não frequenta cafés, nem barzinhos, mas passa horas nas escadas do nosso grande shopping esperando o dia passar e, quem sabe, uma grana pintar.
Os durangos moram nos chamados puxadinhos. O puxadinho na casa da sogra, a garagem que virou um apê bem baratinho naquelas tortuosas ruas do centrinho ou até mesmo o barracão de obra que foi pintado e ganhou cara de casinha. No verão não tem problema porque tem a praia para passar o dia e as noites são bem quentes. Mas agora, no inverno, haja disposição para aguentar o vento sul entrando pelas frestas do barraco.
No quesito alimentação, os ricos e durangos tem algumas alternativas interessantes no bairro. Para começar, os diversos japoneses com os mais diversos apelos: sistemas do tipo “coma o que puder”, rodízio, quilo, festival e, inacreditável, até mesmo o á la carte. Dependendo do dia dá até para os pindaíbas fazerem uma boquinha.
Depois dos japa, temos as pizzarias dos ricos e a dos pobres. A dos ricos tem seu apogeu nas noites de domingo. Não precisa nem entrar para conferir o PIB local, basta dar uma olhada no estacionamento. Já a dos pobres, aliás são várias, fazem a festa da moçada com seus famosos festivais de pizza salgadas e doces a preço único. Indigesto só o molho pomarola que escorre pelas bordas.
Dá para colocar também na categoria uns e outros, os tradicionais restaurantes da não menos tradicionalíssima “Sequência de Camarões.” Para quem ainda não teve contato com a iguaria trata-se de um rodízio do crustáceo nas suas mais diversas apresentações: alho & óleo, no bafo, a milanesa, no molho, etc. Temos sequência para quatro pessoas bem em conta e temos as mais requintadas e, portanto, bem mais salgadas.
Agora, se tem um lugar onde os dois públicos dividem irmanamente o mesmo espaço, o local é a Costa da Lagoa. Só ali você encontra os gorduchos de bermudas e loiras bronzeadas comendo ostras com os dedos, na frente de seus barcões e a turma que chegou de barquinho de linha traçando pastéis de camarões enquanto a criançada pula do trapiche na água cheia de óleo e outras cositas mas.
E o futebol? Claro que todo rico tem seu canal pago, assina o Brasileirão e pode desfrutar do seu esporte no ar condicionado do seu home theater. Mas, no fundo, ele adoraria estar em um bar com os amigos, longe da
mulher que não entende nada e odeia esta coisa de machista. Os pobres tem seu reduto imbatível, bem no centrinho e isso da uma inveja danada nos abastados. O que aconteceu? Abriram um pub com diversas TVs plasmas e cerveja importada para o pessoal que torce comedidamente assistir seu joguinho sem bate boca da torcida ao lado. Quer dizer: ainda não rolou um grenal no espaço para saber se os gremistas e colorados ricos são tão bem comportados assim.
Mas, se tem uma coisa que todos os moradores da Lagoa, ricos ou pobres, velhos ou novos, homens ou mulheres concordam é que ninguém aguenta mais a variação de preço entre os meses com erre e os meses sem erre. O verão não esquenta só a temperatura, também faz os preços subirem muitos e muitos graus e isto, realmente, não combina com um bairro que conta com uma população fixa razoável e que mantém o movimento do comércio local durante o ano todo.
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