terça-feira, 2 de junho de 2009

Existe vida após a morte



Tiago trabalhava na construção civil com seu pai em uma obra na Barra da Lagoa. Saiu do serviço em direção ao Centro da cidade e colidiu com um ônibus, teve traumatismo craniano, não resistiu e morreu no Hospital Universitário. Tiago teve uma parada respiratória e somente pode ser doador das córneas.
A família de Tiago é doadora, representa um exemplo de grande humanismo. A assistente social do HU, Ana Cláudia de Morais, responsável pela educação continuada, e membro do CIHDOTT - Comissão Inter-hospitalar de Doação de Órgão e Tecidos para Transplantes – atende em média um óbito por dia, com possibilidade de doação.
Ana Cláudia trabalha em uma situação limite. Primeiro para saber se a família da vítima deseja fazer a doação, segundo organizar toda uma logística operacional para que o órgão chegue ao receptor e terceiro saber como está a saúde e disponibilidade de quem receberá o órgão.
Todo doador precisa fazer exames de hepatite e HIV- Aids, com sorologia feita pelo Hemosc - Centro de Hematologia e Hemoterapia de Santa Catarina. Caso seja positivo o resultado, não é possível ser doador para não infectar o receptor.
No hospital é preciso receber a família e trabalhar a dor da perda. Segundo a assistente social, muitas mães querem ver seus filhos, mesmo mortos no IML – Instituto Médico Legal. “Quero ver o meu filho”, assim falam as mães, mesmo sabendo que a dor aumentará ao presenciar a morte do filho, segundo depoimento da assistente social. Nesses momentos delicados e muito particulares é preciso perguntar se em algum momento a vítima disse que é doador, ou se a família é doadora.
É necessário criar um acolhimento com os pacientes para favorecer a doação, com um profissional humanizado, desde o pronto socorro até o receptor ganhar o novo órgão. “É um trabalho que precisa ter racionalidade”, diz Ana Cláudia, por se tratar de um momento único de perda que colocará em questão toda uma estabilidade familiar, caso seja um ente querido.
Assim, a equipe de transplantes deve lutar contra o tempo, para transformar a morte em vida. Tempo para convencer as pessoas e trabalho de equipe para organizar a logística e a conservação do órgão, sabendo lidar com o stress e ser o mais eficiente possível. O profissional fala em nome do receptor, que na fila, aguarda o momento de retornar a acreditar na vida.
A chance de ser receptor é cinco vezes maior do que ser doador. Há em Santa Catarina uma lista de espera de 1300 pacientes e destes, 800 destes são para córneas. A Comissão Inter-hospitalar de Doação de Órgão e Tecidos para Transplantes é obrigatória em todo o hospital que tenha no mínimo 80 leitos, contando com uma equipe capacitada pelo SC Transplantes. A lei de transplantes é de 1997, onde foi criado o CIHDOTT.
Educar e capacitar é necessário, o profissional precisa ser sensibilizado com a causa do transplante e deve ser lúcido para conversar com a família. Não pode esquecer-se do sentimento de perda, o profissional deve ser solidário à dor. “O profissional é sempre treinado, não adianta a família doar se não tiver uma equipe qualificada e organizada para que o órgão chegue ao paciente”, diz a assistente social Ana Cláudia.
Não existe disciplina nos cursos de saúde e assistência social nas faculdades sobre doação de órgãos. Deve-se inserir na grade dos cursos esse tema. Dr Joel de Andrade, intensivista do HU e coordenador Estadual dos Transplantes é responsável pela formação da equipe e capacitação dos profissionais que lidarão com a doação em Santa Catarina. Não deve ser um trabalho voluntário, mas sim uma carreira, para que os profissionais se estimulem para o trabalho.
O SNT - Sistema Nacional de Transplantes- é o trabalho de logística, em parceria com o governo do estado e secretaria de saúde de cada estado. O SNT conta com aviões, helicópteros e ambulâncias disponíveis, além de parceria com a Polícia Federal, Polícia Civil e governos de estados de todo o Brasil. Caso estejam indisponíveis todas as possibilidades de transporte do órgão, o Estado paga o táxi aéreo.
O órgão não dura muito tempo fora do corpo. Um coração dura 4 horas para que não ocorra uma esquemia. Quanto mais rápido, mais eficiente é o transplante. O meio oeste de Santa Catarina somente recebe órgãos por avião. Blumenau, Joinville e Itajaí já possibilitam fazer o transporte terrestre tendo como saída a capital, por possuírem uma logística favorável à locomoção de uma das duas viaturas da SC Transplantes.
É preciso que o receptor tenha as condições clínicas favoráveis para receber o órgão doado. O transplante é um procedimento médico de alta complexidade. O receptor de um rim já faz hemodiálise que é um processo de alto custo, ou um cardiopata, que necessita de drogas e equipamentos também caríssimos. O líquido preservante do órgão é importado e muito caro. Avião, ambulância, material médico de alta precisão, tudo é emergencial e de alta especialização. O governo gasta R$ 55 mil por um transplante de fígado, R$ 25 mil por de um rim. É um processo trabalhoso, mas é pago e deve ser feito.
O acompanhamento pós-transplante é necessário para o sucesso da operação. Não é possível dirigir um órgão para determinada pessoa, o que evita favorecimentos, como furar a fila de espera. O software 5.0 aumenta a probabilidade para que o receptor não tenha rejeição, indicando a altura, peso e caixa torácica do receptor e que esteja de acordo com o órgão recebido.
Não é saudável as famílias se conhecerem, quem recebeu o transplante prefere ficar no anonimato. A mídia faz muito sensacionalismo dizendo que o transplantado ganha uma nova família. Isso não acontece em todos os casos. O receptor é curioso. Para a família, o doador volta à vida, a pessoa sai da escuridão e volta a enxergar, como o receptor das córneas de Tiago. Com sua morte, abriu os olhos de um transplantado.

0 comentários: